Que momento vivemos nos Satyros! É uma pena que a carreira de “Inocência”, espetáculo que está cada dia mais gostoso de se fazer e a cada sessão empolga mais os espectadores, vá ficar um pouco truncada. Mas temos uma viagem marcada, vamos reencontrar uma velha amiga, “A Vida na Praça Roosevelt”, no Recife. Apresentaremos o resultado de nosso primeiro namoro com a dramaturgia de Dea Loher no Festival de Teatro do Recife, nos dias 16 e 17. E os Satyros também levam para lá a belíssima “Cosmogonia”, texto e direção de Rodolfo García Vázquez, com Ivam Cabral e Cléo de Paris no elenco. A montagem ocupará a cena nos dias 14 e 15. Depois, dia 24, retornamos com “Inocência” para São Paulo, e o espetáculo fica nos Satyros 1 até 17 de dezembro. Estaremos em cartaz pois, quando, no início de dezembro for lançado pela Imprensa Oficial o livro “Cia. de Teatro Os Satyros: Um Palco Visceral”, que escrevi a partir de muitos depoimentos de Ivam e Rodolfo. O livro tem a forma de uma conversa entre os dois e é delicioso. Para o ano que vem não sei ainda o que nos aguarda. Há muitos projetos e poucas certezas. Mas duvido que esse jogo criador em que estamos todos envolvidos venha a perder ímpeto. Os perigos são muitos. É preciso derrotar um exército de dificuldades a cada dia. Mas até agora os Satyros, assim como boa parte da melhor arte independente que se produz por aqui, resistiram bravamente ao tsunami de problemas que encaram para sobreviver. Evoé.
- Você é muito cruel!
Eu sabia que a decisão que estava tomando, naquele momento, era necessária. Se fosse outra pessoa no meu lugar talvez até tomado a decisão antes. Mas era eu quem tinha ficado com a carga dessa decisão.
A frase ecoou nos meus ouvidos, eu via as lágrimas e pensava: Quem provocou isso? Ela ou eu?
Não era isso o que ela queria que acontecesse, no fundo? Eu não estava fugindo de alguma coisa que iria acontecer, mais cedo ou mais tarde?
Culpa se o destino era esse?
Ivam em processo
Ele é um furacão. Quem vê Ivam atento, solícito, gentil com todo mundo, no bar dos Satyros e nos arredores do teatro, não é capaz de imaginar como ele se transforma quando entra em ensaios. Um dos intérpretes mais sensíveis que eu já conheci, Ivam coloca toda sua argúcia a serviço do processo de criação. Temos trabalhado juntos intensamente desde janeiro de 2004. Ainda não o dirigi, nem vice-versa. Mas atuamos juntos em ‘Kaspar’, ‘Transex’, ‘A Vida na Praça Roosevelt’, ele fez a trilha sonora de minhas encenações ‘O Céu é Cheio de Uivos, Latidos e Fúria’ e ‘De Alma Lavada’. Agora estamos juntos no elenco de ‘Inocência’.
Ivam é movido pela paixão. Suas emoções indicam o caminho que vai percorrer. Mas se engana quem imaginar que esse artista é um irracional apaixonado que vaga feito figura de tragédia romântica pelos corredores dos Satyros. Ao contrário. Ivam mescla a paixão, a paixão com que defende seus pontos de vista, a paixão com que pesquisa elementos para uma personagem ou sons para uma trilha sonora, com um permanente exercício de crítica extremamente racional do processo de trabalho. Sempre quer mais. Sempre deseja o não visto, o não feito. É um radical que não se contenta com pouco. Sempre aponta as contradições, as frinchas, as frestas do pensamento, do conceito em discussão. E não tem medo de ousar, de enlouquecer, de imaginar com energia e intensidade. E, como indicam suas trilhas sonoras (a de “A Vida na Praça Roosevelt” é uma obra de mestre), procura por climas harmônicos dissonantes, estranhos, pouco usuais. O resultado é sempre surpreendente, dialoga com o espetáculo de forma intensa e reveladora.
Como ator, Ivam procede da mesma maneira. Está o tempo todo em busca do desafio, do desconhecido. É um ator camaleão. Bárbara, Dolmancé, Mirador, Kaspar, Teresa de Ávila, Oscar Wilde, para citar só algumas atuações recentes, são criações extraordinárias, cada uma com seu código, com seu desenho visual nítido, seu traçado gestual preciso, exaustivamente pesquisado. E agora vem aí Fadoul, o protagonista de Inocência. Testemunhar Ivam em construção é aprender até onde um ator deve ir: sempre além de seus limites.
Inocência está me fazendo pensar:
- Como percebe o mundo uma pessoa com síndrome de Down?
- Como percebe o mundo uma mulher com gravidez psicológica?
- Como percebe o mundo um cego? um surdo? uma velhinha com Alzheimer?
Não estamos falando aí das percepções ideológicas, mas das percepções físicas.
Uma mosca tem 3.000 pontos de vista diferentes para um mesmo objeto, sempre em branco e preto. Como diria o Elisio, ela tem uma visão panorâmica mais rica do mundo do que nós?
Será que o teatro consegue transportar isso para o palco ?
Rodolfo em processo
Sábado. Termina “A Vida na Praça Roosevelt”. Saio do camarim (sou sempre um dos últimos, demoro pra desmontar a Aurora). No bar do teatro, cheio e borbulhante, como sempre, um jovem ator que acabou de assistir à “Vida”, conversa entusiasmado com Ivam, depois me cumprimenta pelo trabalho. Daí Rodolfo aparece. O ator entusiasmado fala coisas apaixonadas sobre a direção da “Vida”. E depois, pergunta admirado ao Rodolfo: “Como foi esse processo?”
E nosso diretor: “Ah, sei lá. Os atores foram fazendo, e daí eu juntei tudo. Nem lembro mais direito como foi”. Pode ser que ele não lembre, mas tem seus cadernos de direção para servirem de lembrete. Rodolfo vive carregando grossos cadernos espirais, do tipo que a gente usa na universidade, e neles anota tudo que vê e ouve, relativamente ao trabalho. Registra o que lhe interessa. Desses cadernos vão brotando os elementos que acabam por dar forma e sentido ao espetáculo. Ou seja, seu procedimento é bem diferente de “os atores vão fazendo e daí eu junto tudo”.
Mas ele o oposto do diretor fechado, que obriga o ator a seguir um caminho pré-traçado. Ao contrário. Trabalha exigindo uma colaboração estreita do elenco. As leituras da peça são marcadas por longas discussões, cena a cena, onde todas as idéias, até as mais estapafúrdias, que sempre surgem em um processo de criação, são levadas em conta. As improvisações funcionam como um celeiro de imagens, algumas das quais podem definir o conceito da montagem. Esse processo coletivo é filtrado e fixado depois por Rodolfo, que rascunha a montagem com o elenco, para daí passar a limpo todos os borrões, chegando à forma mais exata e ao cerne do que se deseja dizer.
Com “Inocência” não está sendo diferente. O elenco inteiro está em ebulição, buscando imagens, idéias, músicas, lutando para entender a dificílima e fascinante peça de Dea Loher. Até no entendimento da obra Rodolfo é coletivo. O sentido vai sendo descoberto por todos, e não é nunca imposto pelo encenador. Isso faz de nós co-proprietários dessa leitura. O admirável é que Rodolfo consiga isso em um texto que trata de derrotados, deprimidos e suicidas. Estamos empolgados como o texto como se ele fosse a obra mais agradável do mundo, como se estivéssemos fazendo uma comédia de Noel Coward. Duas semanas de trabalho, e o elenco está coeso, instigado. Atento. Vibrante. Isso é resultado da condução de Rodolfo, um senhor encenador.
Como mergulhar sem ser atingido?
Construir um espetáculo que trabalha com a tristeza, melâncolia, depressão, suicídio e com a culpa. Ou inocência.
Uma personagem que convive com os mortos. Outra que carrega a culpa do mundo, um filosofa sem esperanças para o humano... A cada passo que damos em direção ao texto, por menor que seja, ja dá pra imaginar quão fundo terá de ser o mergulho.
Muito trabalho e pouco tempo. Queria estar em condições de blogar muito mais, mas meus dias estão curtos para tudo que tenho de fazer. E há Inocência. Meu Deus, Inocência! Dea Loher é uma dramaturga de gigantesca estatura. Não digo isso porque sou amigo dela nem porque a conheço pessoalmente. Sim, tenho a honra de estar entre os conhecidos da autora laureada com o Premio Brecht de 2005. Mas, tímida ela e tímido eu, não somos propriamente amigos. A gente se adora, se respeita, mas não se estabeleceu nunca uma intimidade real, aquela que permite a amizade, entre nós.
Então, se digo que ela tem uma gigantesca estatura, é porque eu, crítico, jornalista, ator, diretor, escritor, do alto da minha experiência de mais de cinco décadas de palco, sinto isso profundamente. Há poucos autores no mundo hoje que concentram tanta seiva humana naquilo que escrevem. Discípula de Heiner Muller, de quem também foi amiga, Dea escreve uma dramaturgia contemporânea, fragmentada, de traços nitidamente pós-modernos. Mas ao mesmo tempo inscreve-se na tradição articulada por uma linhagem ilustre, e seus antecessores são Georg Kaiser, e mais especialmente Bertolt Brecht, e Muller, sem dúvida.
Mas ao contrário desses dois monstros sagrados do teatro alemão, as peças de Dea Loher não são exclusivamente voltadas para a reflexão e a provocação ao intelecto do público. A escritora bávara rega suas cenas e personagens com uma seiva humana contagiante. Inocência é a prova cabal disso. Como ocorre com A vida na Praça Roosevelt, várias histórias que se cruzam, e por meio delas a dramaturga examina os conceitos de inocência e culpa. Os Satyros estão mergulhados agora na criação de Inocência, contaminados por essa escrita poderosa, por personagens riquíssimas, como a sra. Habersatt, que invade casas de gente que não conhece para pedir perdão por crimes que ela não cometeu, mas que afetaram essas pessoas, ou como a sra. Zucker, que inferniza a vida da filha, Rosa, que trabalha com entregas em domicílio, e do genro, Franz, que depois de muito tempo desempregado arrumou trabalho em uma funerária. E há também Fadoul e Elísio, imigrantes ilegais, que se envolvem com Absoluta, stripteaser cega que trabalha no Planeta Azul. E temos também Ella, uma filósofa perturbada, que tenta dar um sentido ao mundo, e Helmut, seu marido, joalheiro que jamais diz palavra.
O exercício do teatro é um aprendizado cotidiano de vida. O processo de criação de Inocência já apresenta alguns caminhos muitíssimo promissores. O texto difícil, sombrio, dotado de escassas parcelas de esperança, nos afeta e mexe conosco. Mas não no sentido de nos dar medo de enfrentá-lo. Deixa-nos é com mais vontade ainda de encarar o problema. E desta vez estou em um ângulo privilegiado como observador. Como vou interpretar Helmut, o joalheiro calado, não preciso passar horas e horas trabalhando para decorar o texto. O trabalho é em outro plano, físico, e vai surgir mais durante o processo do que na solidão de minha casa. Não será resultado de um embate pessoal meu com o texto mas de minha inserção no cadinho da criação, que está sendo conduzida por Rodolfo García Vázquez com a acuidade que lhe é costumeira e com uma grande integração do elenco, basicamente o mesmo que está junto há quase um ano no palco, fazendo A Vida na Praça. Estou apaixonado por Inocência. E o fato de não ter que me preocupar com o texto a ser decorado me permite prestar muito mais atenção no processo de meus colegas, na maneira pela qual eles estão encaminhando suas criações. Bem, por agora é isso. Sentia que precisava falar um pouco melhor dessa fascinante aventura em que estamos mergulhados, e já o fiz.
Para terminar, não posso deixar de observar como é engrandecedor trabalhar com esse elenco, integrado pelo sempre instigante e genial Ivam Cabral, e por uma turma afiadíssima: Ângela Barros, Soraya Saide, Fabiano Machado, Cléo de Paris, Laerte Kessimos, Tatiana Pacor, Nora Toledo, Daniel Tavares, aos quais se unem ainda a poderosa Silvanah Santos e o jovem e muito talentoso Rui Xavier. Que Dionisos nos abençoe.
Como criar no palco o universo dos suicidas, dos depressivos, dos abandonados, dos solitários, sem mergulhar nas sensações para delas extrair a verdade cênica?
Olá a todos,
Sejam bem vindos. usem e abusem do blog.
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